Um Dia...

      A brisa carrega consigo o cheiro de ozônio em um dia antagônico de nuvens e silêncio. Me pego a refletir tal qual um oniromante acordado de súbito, fitando o vazio antes da recusa dos pássaros em cantar ser notada neste dia que diz muito sem falar nada. Talvez meus ouvidos tenham se aberto para a respiração ancestral da existência; talvez as cores tenham banhado o mundo enquanto eu dormia; talvez um olhar tenha repousado sobre nós uma vez mais e desperto o que há muito parecia ter partido; talvez o coração dos homens tenha, por fim, sido tocado pelo brilho da lua. Respostas, não as possuo... O vento segue soprando seu sussurros. Instintivamente o respondo com um longo suspiro.
      Do lado de dentro, algo também está diferente. A luz externa ilumina mais, a comida tem mais sabor, os pensamentos correm livres pelos cômodos, tomam formas e cores, planam e mergulham. A trindade temporal contida em um único instante, suas impressões espalhadas num paradoxo confortável que não clama por explicação. Sou puxado pela mão e abro, com encontrões, as fechaduras das portas de cada uma das horas que passam lentas e despercebidas, leves e densas, perdidas e encontradas. O caminho tortuoso nunca me foi tão familiar. Onde ele esteve todo esse tempo?
      Como um uivo saído do âmago de uma densa floresta coberta pelo véu da noite, um ruído ressoa no fundo do meu crânio. Sinto minha consciência atravessar todas as portas que foram abertas e mergulhar em uma fuga para o ponto mais profundo de minha mente. Tudo se dissipa, algo mudou. O som insiste uma segunda vez... É a campainha. Lembro-me de encher meus pulmões de ar e, de forma vacilante, conto meus passos até a porta como se estivesse sendo observado. O toque não se repete, de alguma forma, minha rota já é sabida do outro lado. Minha mão alcança a chave, meu pulso gira em seu próprio eixo duas vezes, dedos tocam a maçaneta. Me vejo de frente a um rosto pequeno, levemente alongado, com zigomáticos pronunciados e penetrantes olhos negros. Nada diz, se limita a pender a cabeça levemente e, de forma quase imperceptível, franzir o cenho. Seu corpo magro de extremidades alongadas, mas belo, está trajado com roupas leves típicas de um dia quente. Seus olhos ainda me fitam sob a franja irregular de seus curtos cabelos negros. Quebro o silêncio, balbuciando:

  —Você voltou?

Com um meio sorriso e olhos semicerrados, deixa o ar escapar pelas narinas em um riso contido, passa por mim desviando suas órbitas de mortalha e sobe a escada silenciosamente. Fico parado à porta. Anos em instantes. Fecho e tranco. Um raio rasga o céu e a chuva vira dilúvio. 

             
      

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